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Peixe Médico

junho 15th, 2010

garra rufa 3

Garra rufa. Fonte: http://www.aqualog.de/news/news_pdfen/news86gb.pdf

 

Garra rufa (Heckel, 1843), também conhecido como Doctor Fish (Peixe Médico), Peixe Mordedor, Pequeno Dermatologista, ou Peixe do Kangal, faz parte da grande família Cyprinidae, que contém importantes peixes distribuídos mundialmente.

Essa espécie foi relatada no Irã, Iraque, Jordânia, Turquia e Síria e tem como seu habitat natural os rios, lagos, lagoas e pequenos riachos enlameados da região, onde se esconde entre a vegetação e as pedras.


mapa garra rufa 2
Mapa da distribuição geográfica da espécie Garra rufa.
Fonte:
http://www.discoverlife.org/mp/20m?kind=Garra+rufa&btxt=FishBase&burl

 

Mas, recentemente, esse peixinho vem “ganhando o mundo”, sendo comercializado para vários outros países. O motivo para tal evento deve-se a um comportamento incomum que ele apresenta: Alimenta-se de pele morta!!

Isso mesmo!! Apesar de sua dieta natural ser composta basicamente de organismos incrustantes, também é capaz de se alimentar do tecido morto, sobretudo quando sua fonte de alimentação torna-se escassa e irregular, deixando-os famintos. Este fenômeno é exibido principalmente nos mais jovens, devido à necessidade de uma alimentação mais nutritiva que essas formas juvenis exigem.
 

juvenil mordendo a pele

Garra rufa juvenil alimentando-se do tecido morto.
Fonte:
http://www.aqualog.de/news/news_pdfen/news86gb.pdf

 


Mas, o que há de tão especial nesse estranho hábito??

Como o G. rufa é capaz de remover a pele morta, ele limpa áreas inflamadas e permite que novos tecidos cresçam. Assim, vem sendo utilizado como um novo caminho no tratamento de algumas doenças, em especial problemas de pele como psoríase, eczema, dermatites e acne.

O tratamento consiste na imersão por várias horas em banhos termais abastecidos com centenas ou milhares de espécimes de Garra rufa. Nas águas termais, a temperatura é superior a 30ºC – bem tolerada pelo Garra rufa, mas não por suas presas – o que resulta numa quantidade inadequada de alimento para esses peixes e, conseqüentemente, propicia a busca por comida, que é facilmente encontrada na pele dos visitantes.
A popularidade desse tratamento vem crescendo muito, especialmente na última década, com o surgimento dos spas especializados. Eles originaram-se inicialmente na Turquia e depois espalharam-se para diversos países (Japão, Croácia, Eslováquia, China, Coréia do Sul, Singapura, Malásia, Bélgica, Holanda, Irlanda e E.U.A.), chegando a influenciar no turismo dessas regiões.

 

 

 

paciente 1
Paciente fazendo a terapia com Garra rufa.
Fonte:
http://ecam.oxfordjournals.org/cgi/content/abstract/3/4/483

 

Apesar do Peixe Médico não ser a cura definitiva para as doenças, ele contribui para a redução dos sintomas e os doentes acabam repetindo periodicamente o tratamento. Além disso, muitas pessoas afirmam terem sido curadas após seções dessa terapia.

 


 

pacientes 2 
Pacientes, antes e após, três semanas de tratamento combinado de ictioterapia (Garra rufa) e radiação UV.
Fonte:
http://ecam.oxfordjournals.org/cgi/content/abstract/3/4/483


Além do Garra rufa, duas outras espécies também são usadas em tratamentos médicos: a Cyprinion macrostomum (conhecido comumente como falso Garra rufa) e Oreochromis niloticus. Mas não são consideradas tão eficazes como a Garra rufa e podem causar dor e, até mesmo, sangramentos com seus dentes afiados.

O Peixe Médico adapta-se bem a variados ambientes, podendo ser criado inclusive em aquários particulares, o que torna o fato preocupante se houver captura excessiva para a exportação. Foi pensando nesse problema que, na Turquia, a sua exploração comercial tornou-se protegida por lei.
Deve-se lembrar também que o comportamento de um peixe criado em um aquário é bem diferente do que ele apresenta na natureza, incluindo o hábito de limpeza da pele, principalmente porque no aquário a comida é fornecida em maior abundância.

 

 

Curiosidade:
Os Peixes Médicos também estão sendo utilizados na Ásia e em algumas cidades dos Estados Unidos com outra finalidade: a limpeza dos pés (peixes pedicures).
Segundo os praticantes, a técnica é mais higiênica do que tesouras e alicates.
Mas, como desinfectar os peixes de uma pessoa para outra?? Será que é realmente higiênico esse hábito??

 

 

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Peixe Pedicure. Fonte: dodozi.wordpress.com 

 
 


Mais informações disponíveis nos seguintes sites:

http://www.kasparek-verlag.de/PDF%20Abstracts/PDF30%20Abstracts/049-054%20HamidanMir.pdf

http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6V9R-4M3J0H2-2&_user=10&_coverDate=04%2F30%2F2007&_rdoc=1&_fmt=high&_orig=search&_sort=d&_docanchor=&view=c&_searchStrId=1319687583&_rerunOrigin=scholar.google&_acct=C000050221&_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=5fefcbe5dd56fcaad357f7851fb2f4a2

http://www.epress.com/w3jbio/vol5/bardakci/paper.htm
http://md1.csa.com/partners/viewrecord.php?requester=gs&collection=ENV&recid=2333860&q=%22doctor+fish%22+garra+rufa&uid=789399353&setcookie=yes
http://ecam.oxfordjournals.org/cgi/content/abstract/3/4/483
http://www.fishbase.org/Summary/SpeciesSummary.php?id=26483
http://www.discoverlife.org/mp/20m?kind=Garra+rufa&btxt=FishBase&burl
http://www.aqualog.de/news/news_pdfen/news86gb.pdf

http://pt.wikipedia.org/wiki/Peixe-m%C3%A9dico
http://journals.tubitak.gov.tr/veterinary/issues/vet-04-28-3/vet-28-3-6-0209-8.pdf
 

ANIMAL FOTOSSINTETIZANTE ?!?!

março 25th, 2010

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Foto de Elysia chlorotica obtida em http://www.pnas.org/content/105/46.cover-expansion

 

A lesma do mar, Elysia chlorotica (GOULD), é um curioso molusco que habita as águas da costa leste dos EUA e do Canadá. Esse animal compensa a ausência de um escudo protetor externo (uma concha), com um mecanismo diferente de camuflagem, que lhe confere uma coloração verde-esmeralda e o faz ser confundido com folhas. Porém, essa estratégia de disfarce contra predadores é adquirida de uma forma ímpar: através da realização de fotossíntese!

FOTOSSÍNTESE EM ANIMAIS ???

Pois é, a lesma do mar não só é capaz de se misturar com as algas verdes, como também de captar energia solar para o processo autótrofo.
Com essa peculiaridade a E. chlorotica inovou, desafiando os paradigmas que distinguem os organismos animais e vegetais e deixando os cientistas cheios de interrogações:
– O que levaria um animal a realizar a fotossíntese?
– Eles se utilizam de comportamento heterotrófico simultaneamente?
– Todos os indivíduos desta espécie são capazes de realizar a fotossíntese?
– Seria essa uma estratégia das algas para não serem predadas?
– Outros animais poderiam passar pelo mesmo processo evolutivo?


Bom, alguns desses questionamentos vêm sendo estudados e decifrados, enquanto outros permanecem inquietando o pensamento dos especialistas.
Sabe-se que a habilidade de realizar fotossíntese da lesma do mar decorre do consumo de sua principal fonte de alimentação, as algas Vaucheria litorea (C. AGARDH). Esse animal, a E. chlorotica, consegue quebrar as células da alga em níveis tão baixos que “rouba” os cloroplastos (cleptoplastia) e os mantêm intracelularmente no epitélio digestivo. Assim, observa-se que o molusco não herda os cloroplastos (processo denominado em genética de transferência vertical), mas, ao contrário, cada nova geração tem que obtê-los através das algas.

 

 

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Foto de Elysia chlorotica obtida em http://www.plantphysiol.org/content/vol123/issue1/cover.dtl

 

O incrível é que os cloroplastos conseguem permanecer funcionais dentro da lesma do mar, participando de um processo denominado endossimbiose, por um período de até 9 meses.

Surgem, então, outras dúvidas:
– Os cloroplastos teriam um grau de autonomia genética e bioquímica tão elevado que conseguiriam realizar sozinhos a fotossíntese ?
– Ou seriam as células hospedeiras as responsáveis pelo fornecimento de proteínas essenciais para o funcionamento desses plastídios ?

Aprofundando-se no assunto, um estudo recente “Horizontal gene transfer of the algal nuclear gene psbO to the photosynthetic sea slug Elysia chlorotica” foi publicado em novembro de 2008 na revista PNAS (vol. 105 nº 46), revelando, através de experimentos na região genômica dos plastídios (ptDNA) da alga V. litorea, que falta aos mesmos o complemento total de genes para a realização da fotossíntese, sendo então necessário que a lesma do mar fornecesse as proteínas para o processo fotossintético.

Mas, como um animal possuiria um gene, típico de organismos autotróficos, relacionado à fotossíntese e responsável pela codificação de proteínas que seriam redirecionadas aos plastídios?

A explicação é que um gene, o psbO, teria sido transferido no passado, por um processo denominado transferência horizontal de genes (HGT), das algas V. litorea para as lesmas do mar E. chlorotica e continuou inserido na linhagem germinativa, mesmo sem a transmissão vertical dos plastídios.
O psbO está presente em organismos autotróficos e é responsável pela codificação da proteína MSP, que tem um papal fundamental processo fotossintético. Agora, esse gene, também localizado no DNA nuclear das Elysia chlorotica, dá suporte a teoria da Transferência Horizontal de Genes (HGT).
A troca de material genético entre dois eucariontes é pouco documentada até a data, sendo a lesma Elysia chlorotica um modelo do potencial da Transferência Horizontal de Genes (HGT) entre dois organismos multicelulares.

O que podemos extrair desses fatos é que o conhecimento não é estável e novos eventos estão sempre surgindo para quebrar com os conceitos e as idéias estabelecidas. Todos os dias a natureza nos surpreende e nos mostra a grande diversidade e beleza que existe, nos desafiando a buscar respostas para entendermos melhor o mundo no qual vivemos.

Texto: Mariana Resende de Oliveira 

VOCÊ QUER CONHECER MAIS?? PROCURE NOS SITES ABAIXO:
http://cfcul.fc.ul.pt/pdfs%20e%20powerpoints/estara%20darwin%20ultrapassado.pdf
http://divulgarciencia.com/categoria/elysia-chlorotica/
http://jeb.biologists.org/cgi/reprint/199/10/2323.pdf
http://noaereo.wordpress.com/2010/03/05/evolucao-fotossintese-simbiotica/
www.physorg.com/pdf182501672.pdf
http://raphaelnishida.tumblr.com/post/360760214/elysia-chlorotica-a-lesma-do-mar-fotossintetizante
http://www.netxplica.com/fichas/bio11/Elysia_chlorotica.pdf
http://www.plantphysiol.org/cgi/content/full/123/1/29
http://www.pnas.org/content/93/22/12333.abstract?ijkey=3d05eb2e9f1321dbb5c265d6c6254ff69b9dab20&keytype2=tf_ipsecsha
http://www.pnas.org/content/105/46/17867.full.pdf+html

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